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sábado, 6 de junho de 2020

PINÓQUIO # 30 - Capitulo XXX de Carlo Collodi (publicado em 1881 - Itália)

XXX

Pinóquio, em vez de se transformar num rapaz, parte às escondidas com o seu amigo
Palito para a terra da brincadeira.

    Como é natural, Pinóquio pediu logo autorização à Fada para ir dar uma volta pela cidade a fim de fazer convites, e a Fada disse-lhe:
    - Vai lá convidar os teus amigos para o pequeno-almoço de amanhã, mas não te esqueças de voltar para casa antes que anoiteça. Percebeste?
    - Prometo que daqui a uma hora já estou de volta – respondeu o boneco.
    - Cuidado, Pinóquio! Os miúdos são muito prontos a prometer, mas a maior parte das vezes tardam a cumprir.
    - Mas eu não sou como os outros; eu, quando digo uma coisa, faço-a.
    - Veremos. Aliás, caso desobedeças, pior para ti!
    - Porquê?
   - Porque os miúdos que não fazem caso dos conselhos de quem sabe mais do que eles acabam sempre por ir ao encontro de alguma desgraça.
    - E eu já passei por isso! – disse Pinóquio. – Mas agora já não volto a cair nessa.
    - Veremos se falas verdade.
   Se mais palavras, o boneco despediu-se da sua boa Fada que era uma espécie de mãe para ele e, cantando e bailando, saiu de casa.
   Em pouco de uma hora todos os seus amigos foram convidados. Alguns aceitaram logo e com muito gosto; outros a princípio fizeram-se rogados, mas quando souberam que os pãezinhos para molhar no café com leite também seriam barrados de manteiga na parte de fora, acabaram por dizer: “Nós também vamos, para ficares contente.”
   Chegou a altura de dizer que Pinóquio, entre os seus amigos e companheiros de escola, tinha um que era o seu predilecto e de quem gostava muito; chamava-se Romeu, mas todos o tratavam pela alcunha de Palito por causa do seu físico de lingrinhas, seco e magricela tal qual como um palito.
   O Palito era o miúdo mais perigoso e mais travesso da escola toda, mas Pinóquio gostava muito dele. Com efeito, foi imediatamente procurá-lo a casa para o convidar, mas não o encontrou; voltou pela segunda vez, e o Palito não estava; voltou ainda uma terceira vez, mas fez o caminho em vão.
    Onde poderia encontrá-lo? Procura daqui, procura dali, por fim avistou-o escondido no alpendre de uma casa de lavradores.
     - Que fazer tu aí? – perguntou-lhe Pinóquio, aproximando-se.
     - Estou à espera que seja meia-noite para partir.
     - Aonde vais?
     - Para longe, muito longe.
     - E fui eu três vezes procurar-te a casa!...
     - O que é que me querias?
     - Não sabes do grande acontecimento? Não sabes a sorte que me coube?
     - Que sorte?
     - Amanhã deixo de ser um boneco e passo a ser um rapaz como tu e como os outros todos.
     - Bom proveito te faça!
     - Portanto, amanhã espero por ti para o pequeno-almoço em minha casa.
     - Mas se já te disse que parto esta noite!
     - A que horas?
     - Daqui a pouco.
     - E para onde vais?
     - Vou morar numa terra... que é a melhor terra deste mundo: uma verdadeira maravilha!
     - E como se chama?
     - Chama-se Terra da Brincadeira. Porque é que não vens também?
     - Eu? Nem pensar!
    - Fazes mal, Pinóquio! Acredita em mim: se não vieres, vais-te arrepender. Onde é que encontras uma terra que seja mais saudável para os rapazes como nós? Lá não há escolas, não há professores e não existem livros. Naquela bendita terra nunca se estuda. Ao sábado não há escola, e as semanas lá compõe-se de seis sábado e um domingo. Imagina tu que as férias de Verão começam no primeiro dia de Janeiro e terminam no último dia de Dezembro. Aí está uma terra como eu de facto gosto! Aí está como deviam ser todas as terras civilizadas!
    - Mas como é que se passam os dias na Terra da Brincadeira?
   - Passam-se a brincar e a divertir-se de manhã à noite. Quando é noite vai-se para a cama, e na manhã seguinte começa-se a brincar outra vez. O que é que te parece?
    - Hum!... – fez Pinóquio, e abanou levemente a cabeça, com quem diz: “É uma vida que também eu faria de boa vontade!”
    - E então, queres ir comigo? Sim ou não? Resolve-te.
   - Não, não e não. Já prometi à minha bos Fada que ia ser um rapaz bem-comportado, e quero cumprir a promessa. Aliás, vejo que o sol já se está a pôr, por isso vou-te deixar e correr para casa. Então adeus e boa viajem.
    - Para onde vais com tanta pressa?
    - Para casa. A minha boa Fada quer que eu volte antes que anoiteça.
    - Espera só mais dois minutos.
    - Só dois minutos.
    - E se a Fada depois ralha?
    - Deixa-a ralhar. Quando estiver farta de ralhar, cala-se – disse o patife do Palito.
    - E como é que fazes? Vais sozinho ou acompanhado?
    - Sozinho? Somos mais de cem miúdos.
    - E fazem a viagem a pé?
   - Daqui a pouco passa por aqui a carruagem que me vem buscar para me levar para dentro das fronteiras daquela abençoada terra.
    - Quanto não daria para que a carreuagem passasse agora!
    - Porquê?
    - Para vos ver partir todos juntos.
    - Fica aqui mais um pouco e poderás ver-nos.
    - Não, não; quero voltar para casa.
    - Espera mais dois minutos.
    - Já demorei demais. A Fada já deve estar preocupada comigo.
    - Coitada da Fada! Se calhar tem medo que os morcegos te comam!
    - Mas então – acrescentou Pinóquio -, tens mesmo a certeza de que naquela terra não há escolas?
    - Nem somdra dela.
    - Nem professores?
    - Nem sequer um.
    - E não há nunca a obrigação de estudar?
    - Nunca, nunca, nunca!
   - Que beleza de terra! – disse Pinóquio, sentindo crescer água na boca. – Que beleza de terra! Eu nunca lá estive, mas imagino como é.
    - Porque é que não vens também?
    - Não vale a pena tentares-me! Já prometi à minha boa Fada que me tornaria um rapaz ajuizado, e não quero faltar à minha palavra.
   - Então adeus, e dá cumprimentos meus às escolas primárias... e também às secundárias, se as encontrares pelo caminho.
    - Adeus, Palito. Faz boa viagem, diverte-te e de vez em quando lembra-te dos amigos.
  Dito isto, o boneco deu dois passos para se ir embora; mas depois, parando e voltando-se para o amigo, perguntou-lhe:
   - Mas tens mesmo a certeza que as férias começam no primeiro dia de Janeiro e terminam no último dia de Dezembro?
   - De certeza absoluta!
  - Que beleza de terra! – repetiu Pinóquio, cuspindo de excessiva satisfação. Depois, em tom decisivo, acrescentou bruscamente:
   - Então, adeus mesmo; e boa viagem.
   - Adeus.
   - Quanto falta para partire?
   - Falta um bocado.
   - Que pena! Se faltasse só uma hora para a partida, quase seria capaz de esperar.
   - E a Fada?...
   - Agora, assim como assim já estou atrasado... e voltar para casa uma hora mais cedo ou uma hora mais tarde, tanto faz.
   - Pobre Pinóquio! E se a Fada te ralha?
   - Paciência! Deixo-a ralhar. Quando estiver farta de ralhar logo se cala.
  Entretanto fizera-se noite, e bem escura; nisto, viram ao longe mover-se uma luzinha e ouviram o som de guizos e um toque de trombeta, tão curto e abafado que até pareceu o zumbido de um mosquito.
  - Lá vem ela! – gritou o Palito, pondo-se em pé.
  - Quem é? – perguntou Pinóquio muito baixinho.
  - É a carruagem que me vem buscar. Então, afinal queres vir ou não?
  - Mas é mesmo verdade – perguntou o boneco – que naquela terra os miúdos nunca são obrigados a estudar?
  - Nunca, nunca, nunca!
  - Que beleza de terra!... que beleza de terra!... oh! Mas que beleza de terra!

"As Aventuras de Pinóquio - História de um Boneco" Ed. Cavalo de Ferroa, 2004  |  Tradução de Margarida Periquito  (escrito de acordo com a antiga ortografia). Se detectarem algum erro ou gralha, agradecemos que nos enviem um mail a alertar.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

PINÓQUIO # 27 - Capitulo XV de Carlo Collodi (publicado em 1881 - Itália)

XXVII

Grande luta entre Pinóquio e os seus companheiros. Um deles fica ferido e Pinóquio é preso pelos guardas.

    Assim que chegou à praia, Pinóquio observou o mar com atençaõ mas não viu Tubarão nenhum. O mar estava tão liso que parecia um grande espelo.
    - Afinal, onde está o Tubarão? – perguntou, voltando-se para os companheiros.
    - Se calhar foi tomar o pequeno-almoço – respondeu um deles, rindo.
    - Ou então foi para a cama para dormir uma soneca – acrescentou outro, rindo ainda mais alto.
  Por aquelas respostas sem nexo e pelas gargalhardas imbecis Pinóquio compreendeu que os companheiros lhe tinha pregado uma valente partida, dando-lhe a entender uma coisa que não era verdade; e, levando a mal que o tivessem enganado, disse-lhes com voz de amuado:
    - E agora? O que é que ganharam em fazer-me acreditar na história do Tubarão?
    - O ganho está garantido – responderam aqueles marotos em coro.
    - E qual é ele?
   - Fazer com que tu faltasses á escola e com que viesses connosco. Não tens vergonha de seres todos os dias tão pontual e tão diligente a ir para as aulas? Não tens vergonha de estudar tanto como estudas?
   - E se estudo, o que têm vocês com isso?
   - Temos muito, porque assim obrigas-nos a fazer má figura perante o professor.
   - Porquê?
  - Porque os alunos que estudam fazem sempre com que os outros como nós, que não têm vontade de estudar, façam má figura. E nós não queremos fazer má figura: também temos o nosso amor-próprio!
   - Então o que tenho de fazer para vos contentar?
   - Tens de te aborrecer também tu da escola, das aulas e do professor, que são os nossos três grandes inimigos.
   - E se eu preferisse continuar a estudar?
   - Nunca mais olharíamos para a tua cara, e na primeira oportunidade havias de pagá-las.
   - Vocês até me dão vontade de rir! – disse o boneco, abanando a cabeça.
  - Ouve, Pinóquio! – gritou então o maior dos rapazes, avançando para ele. – Não te dês ares de valentão, não te queiras armar em galo de capoeira!... porque se tu não tens medo de nós, nós também não temos medo de ti. Lembra-te de que tu és só um e nós somos sete.
   - Sete, como os pecados mortais – disse Pinóquio, dando uma gargalhada.
   - Ouviram isto? Insultou-nos a todos! Chamou-nos pecados mortais!
   - Pinóquio, pede-nos já desculpa pela ofensa, senão... não sabes o que te espera!
  - Cucu! – disse o boneco, fazendo girar os dedos com o polegar apoiado na ponta do nariz, num gesto de troça.
   - Pinóquio, isto vai acabar mal!
   - Cucu!
   - Vais levar mais pancada do que um burro!
   - Cucu!
   - Hás-de voltar para casa com o nariz partido!
   - Cucu!
   - Espera aí que eu já te dou o cucu! – gritou o mais atrevido dos miúdos. – Entretanto toma lá este por conta, e guarda-o para o jantar desta noite.
   E ao dizer isto aplicou-lhe um murro na cabeça.
   Mas, como se costuma dizer, foi dá e leva; pois Pinóquio, como era de esperar, respondeu logo com outro murro, e de repente, de um momento para o outro, a luta tornou-se geral e feroz.
Pinóquio, como era de esperar, respondeu, respondeu logo com outro murro, e de repente, de um momento para outro, a luta tornou-se geral e feroz.
   Pinóquio, apesar de estar sozinho, defendia-se como um herói. Manobrava tão bem aqueles pés de madeira bem dura, que mantinha sempre os seus inimigos a uma distância respeitosa. Onde quer que os pés conseguissem chegar e tocar, deixavam sempre nódoa negra como recordação.
   Então os miúdos, irritados por não conseguirem lutar corpo a corpo com ele, dicidiram recorrer ao lançamento de projécteis e, pegando nos livros e cadernos, começaram a atirar-lhe as cartilhas, as gramáticas, as tabuadas e os outros livros escolares; mas o boneco, que tinha olho vivo e pé ligeiro, esquivava-se sempre a tempo, de maneira que os livros, passando-lhe por cima da cabeça, iam todos cair no mar.
   Imaginem os peixes! Pensando que os livros eram comida, acorriam à superfície aos cardumes; mas, depois de abocanharem uma página ou uma capa de livros, cuspiam-na imediatamente fazendo uma careta com a boca que parecia querer dizer: “Isto não presta para nós: estamos habituados a comer coisas muito melhores.”
   Entretanto, a luta encarniçava-se cada vez mais, quando de repente um Carangueijo, que saíra do mar e lentamente fora subindo até à praia, gritou com um vozeirão de trombone desafinado:
   - Parem com isso, seus malandros! Estas rixas entre rapazes raramente acabam bem. Acontece sempre alguma desgraça.
    Pobre Carangueijo! Foi como se estivesse a pregar ao vento. Aliás, o patife do Pinóquio, virando-se para trás e olhando-o de esguelha, disse-lhe com modos grosseiros:
   - Cala-te, Crangueijo de uma figa! Farias melhor se chupasses duas pastilhas de líquem para te curares dessa rouquidão. Vai mas é para a cama e abafa-te bem para suares.
    Entretanto os rapazes, que já tinham atirado todos os livros que tinham, viram ali perto o molho de livros do boneco e apoderaram-se deles num abrir e fechar de olhos.
    Entre esses livros havia um encardenado em cartão grosso, com a lombada e os cantos em carneira. Era um Tratado de Aritemética. Podem imaginar como era pessado!
   Um daqueles diabinhos agarrou no livros e, fazendo pontaria à cabeça de Pinóquio, atirou-o com quanta força tinha no braço; mas, em vez de acertar nele, acertou na cabeça de um dos companheiros, o qual ficou branco como a cal e pronunciou apenas estas palavras:
    - Ai, mãezinha, acode-me... que eu morro!
    Depois caiu e ficou estendido na areia da praia.
   Vendo-o desfalecido, os rapazes, assustados, destaram a fugir e daí a poucos minutos já tinham desaparecido.
    Mas Pinóquio deixou-se ficar ali e, embora estivesse também mais morto que vivo devido à aflição e ao susto, apesar disso correu a ensopar o lenço em água do mar e pôs-se a molhar a têmpora do seu infeliz companheiro de escola. E entretanto, chorando copiosamente, chamava por ele desesperado e dizia-lhe:
   - Eugénio, meu pobre Eugénio!... Abre os olhos e olha para mim!... Porque não me respondes? Sabes, não fui eu que te fiz tanto mal! Acredita, não fui eu!... Abre os olhos. Eugénio! Se continuas com os olhos fechados, fazes com que eu morra também... Ó meu Deus, agora com é que eu vou voltar para casa? Com que coragem é que me vou apresentar à minha boa mãe?... O que vai ser de mim? Para onde hei-de fugir? Onde é que me vou esconder?... Oh, como seria melhor, quantas vezes melhor, se eu tivesse ido para a escola! Porque é que dei ouvidos a estes companheiros que são a minha desgraça? O professor já me tinha dito! E a minha mãe tinha repetido:”Tem cuidado com as más companhias!” Mas eu sou um teimoso, um cabeçudo: deixo-os falar e faço aquilo que me dá na gana. É claro que depois pago as favas... Por isso, desde que estou neste mundo nunca tive um quarto de hora de bem-estar. Meu Deus, o que vai ser de mim, o que vai ser de mim?
    E Pinóquio continuava a chorar, a berrar, a dar murros na cabeça e a chamar pelo pobre Eugénio, quando de repente ouviram um ruído surdo de passos que se aproximavam.
     Voltou-se: eram dois guardas.
    - O que fazes aí estendido no chão? –perguntaram a Pinóquio.
    - Estou a tratar deste meu colega de escola.
    - Ele sentiu-se mal?
    - Parece que sim...
   - Sentiu-se mal, uma ova! – disse um dos guardas, inclinando-se e observando Eugénio de perto. – Este rapaz foi ferido numa têmpora. Quem foi que o feriu?
   - Eu não! – balbuciou o boneco, que já não tinha forças.
   - Se não foste tu, então quem foi que o feriu?
   - Eu não sei! – repetiu Pinóquio.
   - E foi feito com o quê?
   - Com este livro.
   E o boneco apanhou do chão o Tratado de Aritemética encardenado em cartão forte e carneira, para mostrar ao guarda.
   - E de quem é este livro?
   - É meu.
   - Chega! Não é preciso dizeres mais nada. Põe-te já em pé e anda daí connosco.
   - Mas eu...
   - Vem daí connosco!
   - Mas eu estou inocente...
   - Vem daí connosco!
  Antes de se irem embora, os guardas chamaram uns pescadores que naquele momento passavam com o seu barco mesmo pertinho da praia e disseram-lhes:
   - Deixamos à vossa guarda este rapazinho que está ferido na cabeça. Levem-no para vossa casa e tratem dele. Amanhã voltamos para ver como está.
   Depois viraram-se para Pinóquio e, depois de o meterem no meio dos dois, ordenaram-lhe em tom militar:
   - Em frente! E caminho com passo rápido, senão, pior para ti!
Sem que tivessem de lho repetir, o boneco começou a caminhar por aquele atalho que ia dar ao povoado. Mas o pobre diabo já nem sequer já nem sequer sabia em que mundo se encontrava. Parecia-lhe que aquilo era um sonho, e que sonho mau! Estava fora de si. Os olhos viam tudo a dobrar, as pernas tremiam-lhe, tinha a língua colada ao céu da boca e não conseguia articular nem uma palavra. Todavia, no meio daquela espécie de espanto e atordoamento, um espinho agudo trespassava-lhe o coração: o pensamento de que tinha de passar por baixo das janelas da casa da boa Fada, no meio dos guardas. Teria preferido morrer!
  O atalho terminava ali e iam entrar no povoado, quando uma forte rajada de vento arrancou o chapéu da cabeça de Pinóquio, arrastando-o até uma distância de dez passos.
   - Não se importam – disse o boneco aos guardas – que eu vá apanhar o meu chapéu?
   - Vai lá, mas despacha-te.
  Ele foi, apanhou o chapéu, mas em vez de o por na cabeça pô-lo na boca prendendo-o com os dentes, e depois desatou a correr o mais que podia na direcção da paia. Parecia uma bala.
   Os guardas, vendo que não seria fácil apanhá-lo, açularam em sua perseguição um enorme pastor alemão que vencera o primeiro prémio em todas as corridas de cães. Pinóquio corria, mas o cão corria do que ele; por isso toda a gente vinha à janela e se apinhava no meio da rua, desejosa de ver o desfecho daquela corrida renhida. Mas não conseguiram satisfazer esse desejo, porque o cão e Pinóquio levantaram tanta poeira ao longo da rua que passados poucos minutos já não era possível ver nada.

"As Aventuras de Pinóquio - História de um Boneco" Ed. Cavalo de Ferroa, 2004  |  Tradução de Margarida Periquito  (escrito de acordo com a antiga ortografia). Se detectarem algum erro ou gralha, agradecemos que nos enviem um mail a alertar.

terça-feira, 2 de junho de 2020

PINÓQUIO # 26 - Capitulo XV de Carlo Collodi (publicado em 1881 - Itália)

XXVI

Pinóquio vai com os companheiros de escola até à beira-mar para ver o terrível tubarão.

    No dia seguinte, Pinóquio foi à escola municipal.
Imaginem os marotos dos rapazes, quando viram entrar na escola um boneco! Foi uma risota que nunca mais acabava. Um fazia-lhe uma partida, outro outra: um tirava-lhe o chapéu da mão, outro puxava-lhe o casaco por trás, um outro tentava fazer-lhe com tinta dois grandes bigodes por baixo do nariz, e outro ainda tinha a ousadia de lhe atar fios aos pés e às mãos para o fazer dançar.
   Durante algum tempo Pinóquio suportou tudo com desevoltura; mas por fim, sentindo que lhe faltava a paciência, dirigiu-se àqueles que mais o atazanavam e faziam troça dele e disse-lhes, com cara de poucos amigos:
    - Cuidado, rapazes! Eu não vim aqui para ser o vosso bobo da corte. Eu respeito os outros e quero ser respeitado também.
    - Muito bem, que diabo! Falaste como um livros aberto! – gritaram aqueles marotos, rebolando-se de riso; e um deles, mais impertinente que os outros, estendeu a mão com a intenção de agarrar o boneco pela ponta do nariz.
Mas não teve tempo, porque Pinóquio estendeu a perna por baixo da mesa e deu-lhe um pontapé nas canelas.
     - Ai, que pés tão duros! – gritou o rapaz, esfregando a nódoa negra que o boneco lhe fizera.
     - E que cotovelos!... ainda mais duros do que os pés! – disse outro que, por causa das suas partidas grosseiras, levara uam cotovelada no estômega.
    A verdade é que depois daquele pontapé e daquela cotovelada, Pinóquio conquistou imediatamente a estima e a simpatia de todos os rapazes da escola, e todos lhe faziam muitas festas e lhe queriam bem do fundo do coração.
    E até o professor o gabava, pois via-o atento, estudioso, inteligente, sempre o primeiro a entrar na escola e sempre o último a pôr-se em pé quando as aulas acabavam.
    O único defeito que tinha era o de conviver com demasiados companheiros, entre os quais havia muitos malandros bem conhecidos pela pouca vontade de estudar e de se portarem bem.
    O professor todos os dias o avisava, e também a boa Fada não passava sem lhe dizer e repetir muitas vezes:
     - Cuidado, Pinóquio! Aquelas tuas más companhias da escola mais cedo ou mais tarde acabam por te fazer perder o amor ao estudo e, quem sabe, por te causar algumas desgraças das garndes.
     - Não há perigo! – respondia o boneco, encolhendo os ombros e tocando com o indicador no meio da testa como quem diz: “Juízo não falta aqui dentro!”
    Ora aconteceu que um belo dia, quando se dirigia para a escola, encontrou um grupo dos seus companheiros do costume que, indo ao encontro dele, lhe disseram:
      - Sabes a grande novidade?
      - Não.
      - No mar aqui perto apareceu um Tubarão tão grande como uma montanha.
      - A sério?... Será o mesmo Tubarão de quando o meu pobre pai se afogou?
      - Nós vamos até à praia para o ver. Queres vir também?
      - Eu não; eu quero ir para a escola.
    - Que importância tem a escola? À escola vamos amanhã. Com uma lição a mais ou a menos, seremos sempre os mesmos burros.
      - E o que dirá o professor?
      - Que diga o que disser. É para isso que lhe pagam, para rezingar todo o dia.
      - E a minha mãe?
      - As mães nunca sabem sabem de nada – responderam aqueles malvados.
    - Sabem o que é que eu faço? – disse Pinóquio. – Tenho as minhas razões para querer ver o Tubarão... mas vou vê-lo depois das aulas.
      - Que grande palerma! – retrucou um do grupo. – Então achas que um peixe daquele tamanho está disposto a ficar ali às tuas ordens? Assim que se fartar põe-se a andar para outro lado, e quem não o viu que visse.
      - Quanto tempo se leva daqui até à praia? – perguntou Pinóquio.
      - Numa hora vamos e voltamos à vontade.
      - Então, toca a andar! E aquele que mais correr é o mais esperto! – gritou Pinóquio.
     Dado assim o sinal de partida, o grupo de garotos, com os livros e os cadernos debaixo do braço, destou a correr através dos campos, e Pinóquio ia sempre à frente de todos: parecia que tinha asas nos pés.
   De vez em quando, voltando-se para trás, troçava dos companheiros que vinham a uma boa distãncia dele e, ao vê-los o fegantes, cansados, cobertos de poeira e com a língua de fora, ria-se a bom rir. O infeliz, naquele momento, não sabia que medos e desgraças horríveis o esperavam.

"As Aventuras de Pinóquio - História de um Boneco" Ed. Cavalo de Ferroa, 2004  |  Tradução de Margarida Periquito  (escrito de acordo com a antiga ortografia). Se detectarem algum erro ou gralha, agradecemos que nos enviem um mail a alertar.

PIMPOLHO # 26 - "Catarina, o Urso e o Pedro" de Christiane Pieper | para os + novos, história contada por Rita Belchio (BML)


 

Catarina o urso e o Pedro, Christiane Pieper - Kalandraka pela mediadora Rita Belchio


segunda-feira, 1 de junho de 2020

PINÓQUIO # 25 - Capitulo XV de Carlo Collodi (publicado em 1881 - Itália)

XXV

Pinóquio promete à Fada que vai ser bom e estudar, porque está farto de ser um
boneco e quer ser um rapaz como deve ser.

    A princípio a bondosa mulher começou a dizer que não era a pequena Fada dos cabelos azul-turquesa, mas depois, vendo que tinha sido descoberta e não querendo prolongar a comédia por mais tempo, acabou por se deixar reconhecer e disse a Pinóquio:
     - Que boneco malandro! Como é que percebeste que era eu?
     - Foi o muito que te quero que fez com que eu percebesse.
     - Lembras-te?  Deixaste-me menina e agora encontras-me mulher; tão mulher, que quase podia ser tua mãe.
     - Ainda bem, porque assim, em vez de irmãzinha passo a chamer-te minha mãe. Há quanto tempo que anseio por ter uma mãe, como todos os outros miúdos!... Mas como conseguiste crescer em tão pouco tempo?
     - É segredo.
     - Ensina-mo, que eu também queria crescer um pouco. Não estás a ver? Fiquei sempre baixote?
     - Mas tu não podes crescer – respondeu a Fada.
     - Porquê?
     - Porque os bonecos nunca crescem. Nascem bonecos, crescem bonecos e bonecos morrem.
     - Oh, estou faro de ser sempre boneco! – gritou Pinóquio, dando um murro na cabeça. Acho que já é tempo de também eu ser um homem.
     - E hás-de ser, se souberes merecê-lo.
     - A sério? E o que posso fazer para merecer?
     - Uma coisa muito simples: habituares-te a ser um rapazinho bem-comportado.
     - E por acaso não sou?
     - Bem pelo contrário! Os rapazes bem-comportados são obedientes, ao passo que tu...
     - Eu nunca obedeço.
     - Os rapazes bem-comportados t~em dedicação ao estudo e ao trabalho, e tu...
     - E eu, em vez disso, levo vida de mandrião e de vadio o ano inteiro.
     - Os rapazes bem-comportados dizem sempre a verdade...
     - E eu, sempre mentiras.
     - Os rapazes bem-comportados gostam de ir à escola...
     - E a mim a escola faz-me dores de barriga. Mas de hoje em diante quero mudar de vida.
     - Prometes-mo?
     - Prometo. Quero transformar-me num miúdo bem-comportado e quero ser o consolo do meu pai... Onde estará o meu pobre pai a esta hora?
     - Não sei.
     - Será que alguma vez terei a sorte de voltar a vê-lo e abraçá-lo?
     - Acho que sim; aliás, tenho a certeza.
     Ao ouvir esta resposta, o contentamento de Pinóquio foi tão grande que pegou nas mãos da Fada e começou a beijá-las com tanto ardor que parecia quase fora de si. Depois, erguendo o rosto e olhando-a amorosamente, perguntou-lhe:
     - Diz-me, mãezinha: portanto não é verdade que morreste?
     - Parece que não – respondeu a Fada a sorrir.
     - Se soubesses a dor e o aperto na garganta que eu senti quando li “AQUI JAZ...”
    - Bem sei; e foi por isso que te perdoei. A sinseridade da tua dor fez-me ver que tinhas um bom coração; e quando os miúdos têm bom coração, mesmo quando são um bocado travessos e mal-educados, pode-se sempre esperar alguma coisa deles: isto é, pode-se sempre ter esperança de que entram no bom caminho. Foi por isso que vim até aqui à tua procura. Serei a tua mãe...
     - Oh! Que coisa tão boa! – gritou Pinóquio, saltando de alegria.
     - Vais obedecer-me e fazer sempre aquilo que eu disser.
     - Com todo o gosto, com todo o gosto!
     - A partir de amanhã – continuou a Fada – começas a ir à escola.
     Pinóquio ficou logo um bocadinho menos alegre.
     - Depois escolhes uma arte ou um ofício a teu gosto.
     Pinóquio ficou sério.
     - O que é que estás a resmungar entre dentes? – perguntou a Fada em tom ressentido.
    - Estava a dizer... – balbuciou o boneco, a meia-voz – que agora para ir escola já me parece um pouco tarde...
     - Não senhor. Mete na cabeça que para nos instruirmos e para aprendermos nunca é tarde.
     - Mas eu não quero aprender nenhuma arte nem nenhum ofício.
     - Porquê?
     - Porque acho que trabalhar é cansativo.
    - Meu rapaz – disse a Fada – os que falam assim acabam quase sempre na prisão ou no hospital. Pois fica sabendo que o homem, quer nasça rico quer nasça pobre, tem a obrigação de fazer alguma coisa neste mundo, de ter uma ocupação, de trabalhar. Ai daquele que se entrega ao ócio! O ócio é uma doença terrível que é preciso curar logo, desde miúdo; senão, quando somos crescidos já não temos cura.
      Estas palavras tocaram o coração de Pinóquio, o qual, erguendo a cabeça com determinação, disse à Fada:
     - Eu vou estudar, vou trabalhar, vou fazer tudo o que me disseres, porque afinal já estou farto da vida de boneco e quero transformar-me num rapaz custe o que custar. Prometeste-mo, não é verdade?
      - Prometi, e agora depende só de ti.

"As Aventuras de Pinóquio - História de um Boneco" Ed. Cavalo de Ferroa, 2004  |  Tradução de Margarida Periquito  (escrito de acordo com a antiga ortografia). Se detectarem algum erro ou gralha, agradecemos que nos enviem um mail a alertar.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

PINÓQUIO # 24 - Capitulo XXIV de Carlo Collodi (publicado em 1881 - Itália)

XXIV

Pinóquio chega à ilha das abelhas laborosas e reencontra a Fada.

    Pinóquio, animado pela esperança de chegar a tempo de socorrer o seu pobre pai, nadou durante toda a noite.
   E que noite horrível aquela! Choveu a cântaros, saraivou, trovejou assustadoramente e fez uns relâmpagos tais que até parecia ser dia.
    Ao amanhecer, conseguiu ver a pouca distância uma longa faixa de terra. Era uma ilha no meio do mar.
    Esforçou-se para alcançar a praia, mas em vão. As ondas, sucedendo-se e sobrepondo-se, faziam-no andar de um lado para o outro como se fosse uma folha ou um fio de palha. Por fim, e para sua grande sorte, veio uma onda tão forte e impetuosa que o atirou em peso para a areia da praia.
    A pancada foi tão violenta que, ao bater no chão, lhe estalaram todas as costelas e articulações; mas logo se consolou, dizendo:
     - Mais uma vez escapei de boa!
    Entretanto, pouco a pouco o céu foi srenando, o sol apareceu em todo o seu esplendor e o mar ficou calmo e liso como um espelho.
     Então, Pinóquio estendeu a roupa ao sol para enxugar e pôs-se a olhar para todos os lados, a ver se conseguia descobrir naquela imensa extensão de água um barquinho pequenino com um homenzinho dentro. Mas depois de ter olhado muito bem, não viu mais nada diante de si a não ser céu, mar e algumas velas de navios, mas tão distantes que mais pareciam moscas.
    - Se eu ao menos soubesse como se chama esta ilha! – ia dizendo. – Se eu ao menos soubesse se esta ilha é habitada por gente boa, quer dizer, gente que não tenha o vício de pendurar os miúdos nos ramos das árvores! Mas a quem é que posso perguntar? A quem, se não há aqui ninguém?
    A ideia de que se encontrava completamente só no meio daquela grande terra desabitada provocou-lhe tanta tristeza, que estava quase a começar a chorar; mas de repente viu passar, a pouca distância da margem, um grande peixe que ia tranquilamente á sua vida com a cabeça toda fora de água.
    Como não sabia o nome dele para o chamar, gritou-lhe em voz alta para se fazer ouvir:
    - Ó senhor peixe, permite-me que lhe dê uma palavrinha?
    - Até duas – respondeu o peixe, que era um Golfinho tão simpático como se encontram poucos em todos os mares do mundo.
   - Fazia o favor de me dizer se nesta ilha há povoações onde se possa comer, sem o perigo de sermos comidos?
   - Tenho a certeza que sim – respondeu o Golfinho. – Aliás, encontrarás uma a pouca distância daqui.
    - E qual é o caminho para lá?
   - Segues por esse atalho aí à esquerda e vais sempre na direcção do teu nariz. Não há nada que enganar.
    - Diga-me outra coisa. O senhor que passeia pelo mar todo o dia e toda a noite, não teria por acaso ancontrado um barquinho pequeno com o meu pai lá dentro?
    - E quem é o teu pai?
    - É o melhor pai do mundo, assim como eu sou o filho pior que pode haver.
    - Com o temporal que fez esta noite – respondeu o Golfinho -, o barquito deve-se ter afundado.
    - E o meu pai?
   - A esta hora já deve ter sido engolido pelo terrível Tubarão que desde há alguns dias espalha o extermínio e a desolação nas nossas águas.
    - É muito garnde, esse Tubarão? – perguntou Pinóquio, que já começava a tremer de medo.
    - Se é grande!... – respondeu o Golfinho. – Para que possas fazer uma ideia, só te digo que é maior do que um prédio de cinco andares, e tem uma bocarra tão larga e tão funda que por ela passava à vontade um comboio inteiro com a locomotiva a fumegar.
   - Minha mãe! – gritou Pinóquio, assustado; e vestindo-se à pressa, virou-se para o Golfinho e disse-lhe: - Até à vista, senhor peixe; desculpe o incómodo e muito agradecido pela sua amabilidade.
   Dito isto, meteu-se pelo atalho e começou a andar em passo acelerado: tão acelerado, que auase parecia que corria. E ao menor ruído que ouvia olhava logo para trás, com medo de ser seguido pelo terrível Tubarão do tamanho de um prédio de cinco andares e com um comboio na boca.
   Depois de meia hora de caminho chegou a um pequeno povoado que se chamava Terra das Abelhas Laboriosas. As ruas fervilhavam de pessoas que corriam de um lado para o outro ocupadas com os seus afazeres: todos trabalhavam, todos tinham alguma coisa para fazer. Não se encontrava um ocioso ou um vadio, nem mesmo procurando com uma lanterna.
    - Já percebi – dissde imediatamente o preguiçoso do Pinóquio. – Esta terra não é feita para mim. Eu não nasci para trabalhar.
   Entretanto a fome atormentava-o, poi já havia mais de vinte e quatro horas que não comia nada, nem sequer um prato de ervilhacas.
    O que fazer?
    Só lhe restavam duas maneiras de poder comer alguma coisa: ou pedir que lhe dessem trabalho, ou então pedir a esmola de um cêntimo ou de um naco de pão.
   De pedir esmola tinha vergonha, porque o seu pai sempre lhe dissera que só os velhos e os enfermos têm o direito de pedir esmola. Os verdadeiros pobres deste mundo, merecedores de auxílio e de compaixão, são só aqueles que, devido à idade ou à doença, estão condenados a não poder ganhar o pão com o trabalho das suas mãos. Todos os outros têm a obrigação de trabalhar; e se não trabalharem e passarem fome, pior para eles.
    Naquele ínterim passou pela rua um homem todo suado e ofegante que puxava sozinho, com grande esforço, duas carroças carregadas de carvão.
Pinóquio, achando que ele tinha cara de ser boa pessoa, chegou-se a ele e, baixando os olhos com vergonha, disse-lhe em voz baixa:
      - Tem a bondade de me dar um cêntimo, pois estou a morrer de fome?
     - Não te dou só um cêntimo – respondei o carvoeiro – mas sim quatro, na condição de me ajudares a puxar até casa estas duas carroças de carvão.
    - Essa é boa! – respondeu Pinóquio quase ofendido. – Para sua informação, nunca fui burro de carga: nunca puxei nenhuma carroça!
     - Sorte a tua! – respondeu o carvoeiro. – Pois então, meu rapaz, se estás mesmo a morrer de fome, come duas fatias da tua soberba, e tem cuidado para não apanhares nenhuma indigestão.
   Poucos minutos depois passou pela rua um pedreiro que levava aos ombros um balde de argamassa.
    - Bom homem, terias a bondade de dar um cêntimo a um pobre rapaz que está para aqui a bocejar de fome?
   - De boa vontade. Vem transportar argamassa comigo – respondeu o pedreiro – e em vez de um cêntimo dou-te cinco.
    - Mas a argamassa é pesada – replicou Pinóquio -, e eu não quero cansar-me.
    Se não te queres cansar, então, rapaz, diverte-te a bocejar, e bom proveito te faça.
    Em menos de meia hora passaram mais vinte pessoas e a todos Pinóquio pediu esmola, mas todos lhe responderam:
   - Não tens vergonha? Em vez de andares aí pela rua feito vadio, vai mas é procurar trabalho e aprende a ganhar o pão.
     Por fim passou uma mulherzinha bondosa que levava duas bilhas de água.
    - Não te importas, bondosa mulher, que eu beba um gole de água da tua bilha? – disse Pinóquio, que estava a arder de sede.
     - Bebe à vontade , rapaz – disse a mulherzinha, pousando as duas bilhas no chão.
Depois de ter bebido como uma esponja, Pinóquio resmungou entre dentes, limpando a boca:
     - A sede já eu matei. Assim pudesse matar a fome!
     A boa mulher, ouvindo estas palavras, acrescentou logo:
     - Se me ajudares a levar uma destas bilhas de água até casa, dou-te um bom pedaço de pão.
     Pinóquio olhou para a bilha e não respondeu nem que sim nem que não.
    - E para acompanhar o pão dou-te um belo prato de couve-flor temperada com azeite e vinagre – acrescentou a bondosa mulher.
     Pinóquio deu mais uma olhadela à bilha, e não respondeu nem que sim nem que não.
     - E depois da couve-flor dou-te um bombom com recheio de licor.
    Seduzido por esta última guloseima, Pinóquio não foi capaz de resistir e, ganhando coragem, disse:
     - Paciência! Levo-lhe a bilha até casa.
     A bilha era muito pesada e Pinóquio, não tendo força para a levar nas mãos, resignou-se a levá-la à cabeça.
     Chegados a casa, a boa mulher disse a Pinóquio que se sentasse a uma mesinha já posta, e colocou na sua frente o pão, a couve-flor temperada e o bombom.
     Pinóquio não comeu, devorou. O seu estômago parecia um quarteirão vazio e desabitado há cinco meses.
    Acalmando pouca a pouco as ferroadas violentas da fome, a certa altura levantou a cabeça para agradecer á sua benfeitora; mas ainda não acabara de olhar bem para a cara dela quando soltou um longo ahhh!... de espanto e ficou como que enfeitiçado, de olhos esbugalhados, com o garfo suspenso no ar e a boca cheia de pão e couve-flor.
     - Mas o que vem a ser todo esse espanto? – disse a rir a boa mulher.
    - É que... – respondeu Pinóquio a gaguejar -, é que... é que... te pareces... fazes-me lembrar... sim, sim, sim, a mesma voz... os mesmos olhos... os mesmos cabelos... sim, sim, sim, também tens os cabelos azul-turquesa... como ela!... Ó minha Fadazinha, minha Fadazinha!... diz-me que és tu, que és mesmo tu! Não me faças chorar mais! Se soubesses!... Chorei tanto, sofri tanto!...
    E enquanto assim falava, Pinóquio chorava copiosamente e, ajoelhado no chão, abraçava os joelhos daquela mulher misteriosa.

"As Aventuras de Pinóquio - História de um Boneco" Ed. Cavalo de Ferroa, 2004  |  Tradução de Margarida Periquito  (escrito de acordo com a antiga ortografia)Se detectarem algum erro ou gralha, agradecemos que nos enviem um mail a alertar